segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um bocado pra saber como surgiu o conceito de SONHO :


A partir dos métodos de interpretação de sonhos surgidos no início do século, os sonhos perderam o seu status de mensageiros entre os deuses e a humanidade e tornaram-se mensagens entre o ego e o inconsciente.
Na Grécia antiga eles eram usados em rituais de cura nos templos de Asclépios onde a pessoa doente era colocada para dormir e lá permanecia até que um sonho revelasse a origem da doença, como também. um possível tratamento. Já na era Cristã, Artemidorus de Ephesus escreveu um manual de interpretação de sonhos, enfatizando-os como indicadores do futuro, em vez de considerá-los movimentos internos do processo de individuação do sonhador.
E quando em 1900 Freud escreveu "A Interpretação de Sonhos", as comunidades científicas e religiosas já haviam perdido a noção de que os sonhos tivessem qualquer significado. Logo após veio Jung que, depois de seu rompimento com Freud, por volta de 1913, procurou o seu próprio caminho na investigação do inconsciente ocupando-se com seus sonhos, fantasias e memórias de sua infância, dando forma a uma nova abordagem que ele veio a chamar de Psicologia Analítica. Naquela época ele começou a confrontar as figuras do inconsciente usando uma técnica de diálogo interno desenvolvida a partir dos seus experimentos de associação livre de palavras que mais tarde ele deu o nome de imaginação ativa; como também, a sua compreensão dos sonhos diferia daquela de material reprimido, e os colocava como representações autônomas inconscientes numa relação compensatória com o ego. Hall ressalta que os sonhos são uma declaração simbólica que carrega significados ainda não especificados, mas não é uma versão disfarçada de um material reprimido não aceitável.
Esta relação de compensação foi percebida e explicada através da observação de que o ego-onírico às vezes se comportava como o ego-acordado, mas que em muitas outras vezes ele agia diferentemente. É neste contraste que se apoia a função compensatória dos sonhos que traz à consciência um nova imagem do ego completamente diferente daquela de nossa consciência acordada. Isto é, o ego-onírico acaba desempenhando uma função inexistente na consciência, mas necessária ao desenvolvimento do ego-acordado. Como se fosse uma forma de chamar a atenção para alguma coisa ainda não desenvolvida e não percebida por nós.
É aí que entra em foco os chamados sonhos criativos que nos apresentam a idéia de que podemos trazer de nossos sonhos alguma coisa valiosa para nós mesmos, para nossas vidas ou mesmo para a sociedade. Um famoso exemplo desta experiência nos relata o químico alemão F.A. Kekulé, no final do século passado , um sonho que lhe veio em seu auxílio: "Eu virei a cadeira para a lareira e estava meio dormindo. Os átomos flutuavam diante de meus olhos... dançando e girando como cobras. E veja o que aconteceu! Uma das cobras mordeu o seu próprio rabo e a imagem girava diante de mim. Como um relâmpago eu acordei e passei o resto da noite trabalhando nas conseqüências desta nova hipótese". As conseqüências, como vocês sabem, foram a descoberta da fórmula do benzeno. E numa convenção científica em 1890 ele aconselhou: "Aprendam a sonhar, senhores".
Entre a maioria das nações indígenas americanas existem canções/poemas resultantes de algum sonho, passado por um alce, um búfalo ou por lobos. E estas canções acabam sendo adotadas por toda a tribo para refazerem o caminho de encontro com alguma divindade; um instrumento para se recriar uma experiência numinosa.
Na Malásia, o povo Senoi usava uma técnica de alterar o estado dos sonhos para usa-los para criar projetos que contribuíssem diretamente para um modo de vida individual e da comunidade. Eles eram uma sociedade pacífica que usavam os seus sonhos para criar harmonia e bem-estar em sua cultura. Este povo, mesmo cercado por outras culturas como a chinesa e Maometanas, criaram e desenvolveram cerimonias, instrumentos agrícolas, instrumentos musicais, canções e mudanças de hábito na alimentação e vestimenta; a partir de uma ação puramente criativa dos sonhos, uma vez que não existiam modelos ou referenciais nas culturas das colônias vizinhas.
Como o povo Senoi, várias outras fontes já nos deram dicas de como arranjar os sonhos, ou seja, como se tornar um sonhador acordado, ou trazer a consciência para o ego-onírico. Lucidez é o primeiro passo para o sonhador acordado. Escolher estar consciente de um objeto em particular e manter esta consciência através do sonho. A questão não é notar a similaridade com a vida acordada, mas perceber que as imagens no sonho são muito semelhantes ou totalmente diferentes daquelas da realidade acordada. Uma de cada vez, até tudo se tornar claro.
Castaneda relata que após anos de tentativas infrutíferas, ele finalmente conseguiu ver as suas próprias mãos. E conforme instruído por D. Juan, assim que esta visão começasse a se dissolver, ele deveria mudar para outra coisa; e assim por diante. E assim ele fez; "desviei o olhar para um prédio no fim da rua. Quando a visão do prédio começou a dissolver-se, focalizei minha atenção nos outros elementos do ambiente de meu sonho. O resultado final foi um quadro incrivelmente claro e complexo de uma rua deserta em alguma cidade estrangeira desconhecida". Deste modo o sonhar torna-se real, assim que se consegue colocar tudo em foco.
Mas esta vividez e clareza acabam se transformando em um grande obstáculo. A beleza das imagens tendem a nos aprisionar nesta realidade ilusória, nos afastando assim do próximo passo que seria aprender a viajar. Mover-se livremente através do espaço e tempo em um mundo distinto do mundo físico, mas ainda interpenetrado por ele.
Para este empreendimento devemos nos munir de uma estrutura capaz de nos prover de informações suficientes para dar sentido às experiências do estado onírico. Devemos ter em mãos pelo menos um plano de ação. Existem casos de pessoas que entraram espontaneamente nos sonhos conscientes, e sem aviso ou qualquer tipo de preparo permaneceram no nível da lucidez. Como também existem outros que se predisporiam a explorar o mundo onírico sozinhos e sem ajuda. Mas isto é, com certeza, totalmente desaconselhável. Precisamos de ajuda para compreendermos e sabermos responder de forma adequada a esta forma imaterial da realidade onírica.
Transferir a nossa consciência para o mundo onírico requer um cuidado especial para fazê-lo de maneira consciente e segura. Antes de qualquer empreendimento, devemos primeiro nos ocupar com a consciência. É como se tivéssemos de sentir a firmeza do solo onde pisamos, para podermos cravar a nossa ancora de segurança antes de nos lançarmos em um abismo sem fim. Pois é assim que o inconsciente vai sempre nos parecer.
O mundo dos sonhos é muito sutil, efêmero, abstrato e irreal. Não podemos acreditar nas imagens oníricas apenas quando elas nos parecem agradáveis, e quando elas são ruins, as relegarmos a apenas uma produção involuntária de nosso inconsciente sem o menor sentido.
Por toda esta falta de referência, ou por uma má orientação, não reconhecemos os nossos sonhos como algo real e digno de atenção. Os Tibetanos nos dizem que, para tomarmos um passo decisivo em direção à liberação dos infindáveis ciclos de morte e renascimento, devemos compreender melhor as ilusões do estado acordado antes de nos aventurarmos nas ilusões mais sutis do estado de sonhos. O que vivemos aqui é uma projeção de nossa realidade interna.
A nossa dificuldade na compreensão da natureza ilusória dos sonhos, se deve ao fato de igualarmos sua imaterialidade com irrealidade, em vez de reconhecermos esta imaterialidade como uma ilusão a ser penetrada. O desenvolvimento de uma maior consciência tanto na vida acordada quanto na de sonhos é um passo essencial na compreensão da relação entre estes dois mundos. Devemos buscar a consciência, completude ou inteireza, não só nos sonhos, como também em nossas vidas diárias.
Seria extremamente penoso e desastroso tentarmos desenvolver um só lado, seja ele qual for. Se nos empenhamos na evolução de uma consciência onírica sem darmos a devida atenção à nossa vida acordada, poderemos estar gerando um grande conflito. Sob uma perspectiva de crescimento, é sempre muito bom podermos ir em direção à novas fronteiras, mas sem abandonarmos o território já conquistado.
Devemos procurar o desenvolvimento de uma consciência integradora, não causal, para entendermos e integrarmos os eventos e visões, diurnas e noturnas. Se o objetivo maior é o equilíbrio psíquico, ou seja, maior integração entre consciência e inconsciente; lucidez nos sonhos requer também lucidez na vida acordada, onde ambas são um instrumento valioso para se alcançar este fim.

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